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O QUE É A CEGUEIRA?[AQUI É ONDE MUITA GENTE SE COFUNDE,NÃO ENTENDENDO QUE HÁ VÁRIOS NÍVEIS DE CEGUEIRA,PARA ENTENDERMOS MELHOR]


O que é a cegueira?

2.1 Definição e ocorrência da cegueira

As restrições sensórias impostas pela deficiência visual dependem do modo como que esta se manifesta. Em geral, as impressões visuais registram-se na memória apenas a partir dos seis anos de idade, aproximadamente; se uma pessoa torna-se cega antes dessa faixa etária, na prática, é como se tivesse nascido sem ver.

Costuma-se definir tecnicamente a cegueira a partir de dois parâmetros. Um deles é a acuidade visual, que diz respeito à distância através da qual um objeto pode ser visto: na escala de Snellen, a fração 60/60 corresponde à visão normal propriamente dita. O outro parâmetro é o campo visual, relacionado com a amplitude angular em que os objetos são enquadrados para que possam ser vistos. As possibilidades são quatro: 60 graus para a visão superior; 76 graus para a inferior; 100 graus para a horizontal na altura das têmporas; 60 graus na região do nariz. Sendo essas as condições preliminares, a cegueira define-se como a deficiência visual em nível máximo: é o estado de amaurose, em que a visão absolutamente não ocorre, ou então acha-se reduzida quanto à acuidade visual central a um patamar igual ou inferior a 6/60 na escala Snellen; em situação de cegueira, o campo visual não excede a 20 graus, sempre tomando como parâmetro o melhor olho, tendo sido realizada correção ótica.

A visão subnormal dá-se quando a acuidade visual central se reduz à faixa intermediada pelas frações 6/20 e 6/60, na escala Snellen, feita correção máxima no melhor olho. O campo visual é também bastante reduzido, geralmente em nível próximo ao que caracteriza a cegueira. Em casos assim, a pessoa pode ler impressos em tinta, desde que as letras sejam suficientemente grandes e que ela use lentes especiais.

É comum que os estabelecimentos educacionais para os cegos também atendam às pessoas que têm visão subnormal. Não obstante, na prática quotidiana, a cegueira pode diferir bastante da visão subnormal, haja vista a flexibilidade que essa noção comporta.

Aliás a própria definição da cegueira é, por natureza "evasiva e complexa", como esclarece René Gouarné, cego e atual presidente da GIAA (Groupement des Intelectuels Aveugles ou Amblyopes), na França. De fato,

É da função visual que se deve partir. A cegueira, com efeito, não é apenas a ausência de toda função visual. Ela é a alteração grave ou total de uma das funções elementares que constituem a função visual, de uma delas ou de várias ao mesmo tempo, a saber, por exemplo, a capacidade de apreciar a cor, a distância, a forma ou o movimento, e isso num campo mais ou menos estendido. Assim, aquele que não distingue o verde do vermelho não pode conduzir um automóvel, impedido que está de observar a sinalização das ruas, o que já constitui uma deficiência visual grave.

Os homens são sujeitos a impedimentos que lhes alteram o físico e a mente, não importando os lugares, as épocas, a faixa etária, a posição social ou o nível econômico. A deficiência não faz necessariamente distinções dessa ordem. Perguntar pela situação específica da cegueira evoca uma realidade atinente a todos os homens. Realmente, a deficiência não apresenta relação obrigatória com nenhum desses referenciais. Porém, tais relações muitas vezes existem. O isolamento geográfico, aliado a fenômenos de natureza genética, favoreceu a propagação do daltonismo entre a população das ilhas Pingelap e Pohnpei, na Micronésia. Um exemplo paralelo tem-se em Cruz, povoado do Nordeste brasileiro onde a prática reiterada de casamentos consangüíneos contribuiu para a disseminação de problemas auditivos entre a população. A ignorância e a falta de recursos financeiros são fatores que, quase invariavelmente, favorecem a ocorrência e a propagação de fatalidades que afligem o homem. No fim dos anos 60, estimativas divulgadas pela ONU afirmavam que, em certos países do Terceiro Mundo, "o percentual da população que sofria deficiências era muito elevado e, na maioria das vezes, tratava-se de pessoas sumamente pobres".

Em escala mundial, o crescimento demográfico é fator que alia-se à pobreza e à precariedade das condições de vida. Três quartas partes da população da Terra concentram-se nos continentes onde há maior incidência de problemas sócio-econômicos: a Ásia, a América Latina e a África. No que tange à deficiência em geral e à cegueira em particular, tampouco causa surpresa que sejam justamente em países pertencentes a esses três continentes que encontramos os índices mais altos de pessoas atingidas. E, no mais das vezes, por motivos que poderiam ser neutralizados.

O tracoma, ou conjuntivite granulosa, espalha-se por contágio na África e no Oriente Médio, vindo muitíssimas vezes a se transformar em cegueira. Além do tracoma, a conjuntivite, algumas doenças venéreas, o sarampo e a lepra podem concorrer para a instauração de deficiências oculares graves e irreversíveis. Outras vezes, os condicionantes estão na deficiência alimentar, sendo a desnutrição um fator crítico. Doença ocular caracterizada pela falta de vitamina A, a xeroftalmia (em sua forma avançada, a queratomalacia) torna-se causa direta da cegueira em certas áreas densamente povoadas da Ásia, da América Latina e da África. No início da década de 70, quando Dacca, a capital de Bangladesh, abrigava meio milhão de habitantes, 259 crianças cegaram na cidade, por haverem contraído queratomalacia. E isso num único ano. Na mesma época, a xeroftalmia era uma das doenças mais comuns entre as crianças da Indonésia; em 8% dos casos, transformou-se em queratomalacia, causando cegueira.

O fator geográfico também pode exercer papel decisivo, mercê da localização específica de insetos transmissores de doenças causadoras da cegueira. É o caso do mosquito Similium damnosum, que tem seu habitat na África, havendo ainda outras espécies do mesmo inseto na América Central e do Sul. Sua picada transmite o verme Onchocerca volvulus, causador da lesão ocular conhecida como oncocercose e que tende a se traduzir patologicamente como cegueira. Em grande parte da África a oncocercose chega a ser endêmica.

Outro problema é a falta de médicos. Em cada país, a incidência da cegueira causada por glaucoma e catarata é inversamente proporcional ao número de oftalmologistas em condições de combater esses males. Ainda no início da década de 70, havia nos EUA um oftalmologista para cada grupo de 30 mil pessoas; já na Nigéria do Norte, na mesma época, quatro oftalmologistas atendiam a população inteira do país, que era de 30 milhões de pessoas. Disso pode-se inferir que, assim como a pobreza concorre para a difusão da cegueira, a riqueza favorece a sua prevenção e até mesmo a cura. Não surpreende que a demografia do Afeganistão apresente um percentual enorme de cegos e a da Alemanha, um mínimo. Entretanto, por paradoxal que venha a parecer, o fator econômico pode indiretamente ocasionar a cegueira. É nos países mais desenvolvidos que encontramos um maior progresso tecnológico, responsável, por exemplo, pela invenção das incubadoras, que permitem salvar a vida de bebês prematuros. Mas a que preço! No interior das incubadoras, o excesso de oxigênio tende a comprometer de forma irremediável o desenvolvimento da retina, causando assim a cegueira. Entre 1940 e 1954, foram milhares os bebês prematuros que saíram cegos das incubadoras. Embora a causa tenha sido descoberta em 1954, o problema ainda não tem solução satisfatória: existe o risco de cegar nas incubadeiras. Por serem elas um invento muitas vezes raro ou inexistente em países pobres, dado que sua aquisição e uso exigem um alto custo financeiro, é nos países ricos que esse agente causador da cegueira se manifesta com mais freqüência.

Para a pessoa que vê, normalmente a cegueira é entendida a partir de duas possibilidades mutuamente excludentes: ver ou não ver. Sob o ponto de vista cultural, a compreensão da cegueira liga-se a fatores diversos, muitos deles geradores do estigma da exclusão vivenciado pelo cego. Uma análise etimológica mostra-se esclarecedora. As vantagens desse procedimento apóiam-se no fato de ser a língua o único sistema de códigos que tem a propriedade de atuar como intérprete para outros sistemas codificados, como perceberam Saussure e Benveniste. Partindo da etimologia, percebe-se que, na cultura ocidental, o conceito de "cegueira" desdobra-se em quatro vertentes semânticas principais.

Falemos de cada uma delas. Antes, porém, convém lembrar a inevitável inadequação entre as palavras e as coisas que elas significam. A compreensão da origem das palavras ajuda-nos a compreender-lhes o significado. Mas sempre devem ser tidos em conta os limites inerentes à linguagem, bem como o enorme abismo que existe entre o abstrato da fala e o concreto do real. Tenhamos em mente o conteúdo destas linhas de Borges: "(…) exigiam-lhe maravilhas e a maravilha é incomunicável: a Lua de Bengala não é igual à Lua do Yemen, porém se deixa descrever com as mesmas palavras".

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Sobre sérgio soares gomes

Sou médico formado na UFSM,atuo na área de clínica-geral, com atenção voltada às doenças crônicas-degenerativas.

Uma resposta »

  1. Obrigado por colaborar com meu aprofundamento na área da visão.

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