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A Independência do Deficiente Visual na Perspectiva de Paulo Freire e sua Teoria Libertadora


A Independência do Deficiente Visual na Perspectiva de Paulo Freire e sua Teoria Libertadora

Rede Saci
10/12/2009

Leia trabalho de conclusão de curso em Pedagogia de Alzer Augusto Dos Santos, usuário da Rede Saci

Alzer Augusto Dos Santos

Trabalho de conclusão de Curso, no Curso de Pedagogia da Universidade São Marcos, sob orientação da Profª Regina Ozeki.

À minha família, meus professores e a Deus.

Sumário

Introdução - 4

Capítulo 1 A Constituição do Ser pessoa/Ser Autônomo – 5

Capítulo 2 A superação e a capacitação de cegos e de deficientes visuais – 7

Capítulo 3 O sistema de informática para cegos e deficientes visuais e a independência silenciosa – 10

3.1 O que é voz sintetizada – 10

3.2 A nova ferramenta de leitura e o Braille – 13

3.3 A rede mundial de computadores e as novas tecnologias para cegos – 15

3.4 Os cegos e o processo de leitura pelos computadores – vantagens e prejuízos – 17

3.5 A internet para cegos – 18

Capitulo 4 A autonomia do deficiente visual segundo a perspectiva de Paulo Freire – 20

4.1 A pedagogia Freiriana e a autonomia do cego e deficiente visual – 24

4.2 A autonomia do deficiente visual – 26

4.3 A chegada a um centro de reabilitação – 26

Considerações Finais - 29

Introdução

Em meados da década de 1990, quando nos encontrávamos no Rio de Janeiro, mais especificamente no encontro do Dosvox e também para o encontro de Estudantes Deficientes Visuais, muitos foram os assuntos em pauta, mas hoje, penso que o mais extraordinário daquilo tudo é que avançamos, mesmo que lentamente, para uma sociedade mais igualitária e sem tantas pessoas que não enxergavam o cego como indivíduo autônomo; pelo contrário, o Brasil avançou e pude testemunhar um pouco desse momento e que quero compartilhar com esse trabalho de conclusão de curso pela Universidade São Marcos. Pretendo falar além de Freire e sua Pedagogia, de autores que com certeza se dedicaram a Ciência de uma forma a garantir muito do sucesso desse pernambucano e sobretudo brasileiro – Homem do Mundo – que foi Paulo Freire.

O cego entra na perspectiva que demonstra seu desenvolvimento social mais significativo, principalmente neste século XX, e cientistas como Freire e Jean Piaget entre outros contribuíram, senão na totalidade, pelo menos com conceitos Pedagógicos que engrandecem a classe dos educadores.

Alzer Augusto dos Santos.

Capítulo 1 – A Constituição do Ser Pessoa / Ser Autônomo

Primeiramente gostaria de tornar claro a diferença entre dois problemas: o problema do desenvolvimento em geral, e o problema da aprendizagem. Penso que estes problemas são muito diferentes, ainda que algumas pessoas não façam esta distinção.

O desenvolvimento do conhecimento é um processo espontâneo, ligado ao processo global da embriogênese. A embriogênese diz respeito ao desenvolvimento do corpo, mas também ao desenvolvimento do sistema nervoso e das funções mentais. No caso do desenvolvimento do conhecimento nas crianças, a embriogênese só termina na vida adulta. É um processo de desenvolvimento total que devemos re-situar no contexto geral biológico e psicológico. Em outras palavras, o desenvolvimento é um processo que se relaciona com a totalidade de estruturas do conhecimento.

A aprendizagem apresenta o caso oposto. Em geral, a aprendizagem é provocada por situações, por um experimentador psicológico; ou por um professor, com referência a algum ponto didático; ou por uma situação externa. Ela é provocada, em geral, como oposta ao que é espontâneo. Além disso, é um processo limitado a um problema simples ou uma estrutura simples.

Convivência com Paulo Freire: no exterior, a possibilidade de se aprender mais sobre o Brasil.

Fundação do Instituto Paulo Freire: um espaço na busca de novas teorias e práticas educacionais. Compromisso com os oprimidos de todo o mundo.

Contribuição de Paulo Freire à história das idéias pedagógicas: “O conhecimento deve-se constituir numa ferramenta essencial para intervir no mundo.” Para Paulo Freire, conhecer é descobrir e construir e não copiar, como na pedagogia dos conteúdos. A educação não pode ser orientada pelo paradigma de uma empresa, que dá ênfase apenas a eficiência. Este paradigma ignora o ser humano. Segundo os construtivistas, aprende-se quando se quer aprender e não se aprende o que é significativo.

Como diferenças, Freire, por exemplo, mostra um caminho voltado para superação do indivíduo; enquanto Piaget mostra-se pelo nascimento e herança genética. Em nosso entendimento, Freire é mais pela solidariedade e pelo real social do que Piaget.

Paulo Freire parece incorporar melhor as idéias de Sócrates -“Sei que nada Sei” – embora ambos falem de algo comum que é o conhecimento enraizado no ser, e isso fica evidente quando fazem referência ao construtivismo pelo argumento do saber inconsciente (oculto).

Concluímos, nesse primeiro contato com as influências da proposta, o deficiente visual autônomo, tema de nosso trabalho, que: a proposta freiriana parece ter raízes e, sobretudo, demonstra uma visão antagônica a proposta piagetiana, pois Piaget fala da biologia como algo oposto a aceitação freiriana, enquanto pré-requisito para o aprendizado.

Capítulo 2 – A Superação e a Capacitação de Cegos e de Deficientes Visuais

A pesquisa bibliográfica na página da internet da Fundação Dorina Nowill para Cegos e Deficientes Visuais – http://www.fundacaodorina.org.br – acessada no dia 12 de Outubro às 16:15 aproximadamente, define-se como cego e deficiente visual: “A não percepção visual; a não acuidade visual; a necessidade de se utilizar o Braille ou lupas (lentes de aumento).

Em nosso trabalho trataremos neste capítulo da superação de portadores de deficiência visual, mas daremos também alguns conceitos importantes que facilitarão o entendimento geral das idéias contidas neste trabalho.

Poderia abrir esta porta a outros. Ao aceitar sua condição, Dorina encontrou força e equilíbrio para assumir os riscos que a vida impõe: "A vida não é fácil para ninguém, é mais feita de frustrações do que sucessos, mas isto não nos impede de superar os obstáculos e ser feliz".

Poderíamos iniciar esta monografia com este pensamento, mas Dorina Nowill com seu trabalho na Fundação que dirigia a bem pouco tempo, mostra-nos o quanto devemos lutar pela independência do cego e do deficiente visual. Como dissemos anteriormente, deficiente visual está relacionado à ausência de luz ou a pouca captação da mesma; tal condição leva a pessoa deficiente a necessitar de atendimento especializado. (http://laramara.org.br – acessado no dia 12/10/2007 às 15;30hs)

Em nossa análise, entendemos que ser cego é superar constantemente tais obstáculos, que por sua vez, demonstram serem quase intransponíveis, enquanto alguns cegos e deficientes visuais têm demonstrado ao longo da história sua enorme capacidade para vencer desafios.

Em que isso está ligado a autonomia do cego e deficiente visual? Em nosso ponto de vista, se relaciona tal autonomia com o papel social que desenvolvem tais pessoas como é o exemplo de Dorina Nowill, que não se abateu, e procurou superar seu limites.

Aproveitando o depoimento de tão encantadora senhora, falamos da portadora de deficiência visual Dorina Nowill, faremos uma abordagem sobre a superação do ponto de vista mais genérico, isso para não cometermos injustiças, mas trataremos do surgimento do método Braille, desenvolvido por esse francês notável, Louis Braille, que aos 16 anos, desenvolveu um método que poria o cego de então na rota da integração.

Sobre esse tema que, trata da integração Paulo Freire fala: “Não basta que o povo imerso no seu silêncio secular emirja dando voz às suas reivindicações. Ainda deve tornar-se capaz de elaborar de maneira crítica e prospectiva a sua conscientização, de maneira a ultrapassar um comportamento de rebelião para uma integração responsável e ativa numa democracia a fazer num projeto coletivo e nacional de desenvolvimento.”

Se Paulo Freire condena as elites no poder por só pensarem em defender os seus interesses, também se opõe às pretensões das novas elites que manipulam as massas recém-alfabetizadas ou que despertam ilusões por um ativismo sectário.

A massa que são os cegos e deficientes visuais vive essa realidade quando se trata de inclusão, como fala tão bem Nowill e cuja reportagem está em anexo.

Observamos que tanto Freire como Nowill tem essa preocupação com a manipulação das massas, desta feita dos cegos tema de nosso trabalho, mas nos detendo em Freire e em seus escritos de 1958, veremos que o deficiente visual, com membro ativo da sociedade, não pode continuar a ser alvo de poucos que só querem transformá-lo num produto de “rótulo melhorado”. O deficiente visual e cego precisa se organizar em associações que, não o transformem em “isolados”, ou seja, em excluídos do sistema.

Neste sentido, temos muitos exemplos como foi Braille e é Nowill, que pensaram o cego e deficiente na sua realidade transformada e não “maqueada”.

Capítulo 3 – O sistema de Informática para cegos e deficientes visuais e a independência silenciosa

A independência silenciosa é conquistada pelos cegos através do acesso às informações, via voz sintetizada, com a utilização do sistema DOSVOX, além do sistema BRAILLE.

3.1. O que é voz Sintetizada?

Em meados da década de 90, quando foi desenvolvido pelo Professor Antonio Borges o sistema Dosvox, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, a idéia que se tinha da voz sintetizada era a que era trazida de fora. Os aparelhos eram quase sempre elétricos e de difícil acesso pelos cegos de menor poder aquisitivo. Com o Dosvox tudo ficou mais fácil e os cegos passaram a ler ouvindo, algo que mudou muito o conceito de educação ou ao menos o conceito de leitura para cegos.

Breve histórico
O sistema veio para "ficar", era a idéia difundida no encontro Dosvox realizado em 1995, na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Quando entrou na sala Antonio Borges, professor de Computação na Universidade Federal do Rio de Janeiro, não imaginava que, mais tarde, devido à necessidade de um de seus alunos que era deficiente visual, Marcelo Pimentel, ficaria encarregado de um projeto tão relevante para a vida de portadores de deficiência visual, que é o Dosvox.

Naquele ano, o Brasil vivia o clima das campanhas do Betinho e o que se questionava às pessoas é se elas optariam por monarquia ou república. O Rio de Janeiro, local de efervescência cultural, seria palco do lançamento de um programa que mudaria em muito o processo de leitura para deficientes visuais no Brasil. Além de baixo custo, tal sistema falava português e isso, no Congresso de 1995, foi motivo para muita inspiração em idéias para se lançar arquivos em formato txt. (texto), e que seriam de fácil acesso para os leitores de Dosvox.

Sendo único até então, o sistema brasileiro Dosvox se utilizava de plataforma DOS (Disk Operation System) e possuía além de um editor simplificado, modos de se acessar arquivos de texto em formato ou extensão txt., e modos de se manusear diretórios de trabalho. Dessa forma, o deficiente visual podia, na época, escrever desde uma carta até textos mais extensos no computador.

Em comparação com outros sistemas importados, quase sempre da Inglaterra ou dos Estados Unidos, o Dosvox não parecia tão promissor quanto à parte técnica e de suporte ao usuário de outros programas, principalmente, na plataforma Windows, mas na prática, os usuários deficientes visuais e mais a equipe que Borges dirige, proporcionaram um enorme desenvolvimento do ponto de vista operacional, sendo o Dosvox um dos softwares mais usados pelos cegos brasileiros e também em outros países até hoje, e tem seus recursos cada vez mais aperfeiçoados.

Quanto aos outros programas, eles são para plataforma Windows, como por exemplo: Jaws e Virtual Vision. O Virtual Vision é financiado pelo Banco Bradesco e praticamente o VV, como é conhecido, segue e muito os avanços do Jaws – programa norte-americano e que se destina aos cegos de vários idiomas.

Muito utilizados em plataformas Windows, o VV e o Jaws trabalham com programas da Microsoft, entre outros programas. Acontece que o Jaws e o VV trabalham na internet com programas também da Microsoft, o navegador Internet Explorer, e são utilizados na programação da mesma forma que o Dosvox. "Falam" em português como o Dosvox, só que são comercias, com os custos empresariais agragados, diferentemente do Dosvox, de distribuição gratuíta.

Na atualidade, tanto o Jaws e o VV como o Dosvox têm tido boa aceitação pelos usuários deficientes visuais.

3.2. A nova ferramenta de leitura e o Braille

O Braille, método desenvolvido por Louis Braille – francês que viveu no século XIX, levou a uma nova tomada de posição quanto à educação especializada.

Na época, a integração de deficientes visuais em ambientes de escola tornou-se possível também pelo Braille, sendo este decisivo para colocar os cegos em contato com a escolaridade convencional, isto é, aquela que era dada para pessoas com visão normal.

Até então rejeitados a um plano de menor potencial escolar, os cegos só conheciam o ensino especializado, antes da criação de um método simples, porém de grande alcance social, o Braille, que na prática consiste na escrita em relevo de seis pontos perfurados em papel com pranchetas ou máquinas especiais.

Falar de Braille é falar da própria identidade do cego. Hoje ainda utilizado na educação para deficientes visuais, o Braille segundo

relatos dos próprios usuários, vem perdendo espaço para as novas tecnologias e seu alcance e uso vem sendo limitado pelo avanço do computador, como ferramenta de leitura.

Os motivos que levam os deficientes a lerem menos Braille estão ligados à ausência de material mais especializado e também a aquisição de informação, que segundo muitos usuários aumentaram consideravelmente com o uso da leitura digital.

Além disso, o computador trouxe ao cego uma nova oportunidade de profissionalização em entidades destinadas ao atendimento especial como em escolas e até universidades.

O sistema digital veio para ficar, segundo os próprios usuários cegos, e mostra-se mais eficiente que antigos métodos de leitura para cegos? Sim, segundo muitos usuários consultados, e cujo relato consta nesse trabalho.

O computador trouxe vantagens principalmente quanto ao ganho na leitura, tornando a mesma mais ligeira e eficiente? Sim, pois consultar a internet parece que não é o único ganho, embora esta ferramenta de comunicação tem sido utilizada cada vez mais pelos cegos brasileiros.

O método Braille não é insubstituível? Não, se os cegos se adaptarem aos computadores, mas acontece que nem todos se adaptam, pois têm dificuldade em acompanhar tais mecanismos de leitura e de busca pela net (nome pelo qual é chamada a internet).

3.3. A rede Mundial de computadores e as novas tecnologias para cegos

O Braille, usado desde o século XIX para ensinar cegos a ler e escrever, foi importante para muitos dos portadores de deficiência e até hoje deve ser consultado, mas acontece que o tempo passou, chegaram as mudanças como a globalização, os deficientes visuais passam a ser mais inclusos no Brasil e ter mais acesso a informação – meio pelo qual se adquire conhecimento e propaga cultura. (Nota: definição do autor)

As mudanças chegaram no meio dos deficientes visuais através de novas Associações, mas também de trabalhadores anônimos como alguns cegos que lutaram durante décadas para tornar os deficientes visuais mais autônomos.

Nesse trabalho, não serão citados nomes para que não se cometam injustiças, mas foram muitos os deficientes que passaram do anonimato para as páginas de jornais locais e até nacionais, como heróis desse meio, e foram muitos mais que lutaram e lutam na vanguarda da intelectualidade, do esforço, do heroísmo e da solidariedade por um Mundo com o cego incluso de uma melhor maneira.

Desde os remotos tempos, os cegos têm seu papel levado à uma condição de meros "coitadinhos", mas com o advento do Braille, os cegos ganharam o estudo em massa, e foram para as ruas com bastões que simbolizam espadas de guerreiros pela liberdade do preconceito, e mais autonomia em relação as mais diferentes tarefas. Hoje, encontramos cegos professores, fisioterapeutas, programadores de computador e artistas entre outras áreas.

Tudo isso mostra o quanto se errou no passado em julgar mal o cego no que diz respeito às suas habilidades profissionais. Isso, na realidade, revela o quanto o mundo evoluiu fazendo com que os cegos saíssem da condição de oprimidos para a de destaque no processo de inclusão das minorias.

Hoje, as telenovelas já tratam os cegos como seres ativos, inclusive em áreas até então inesperadas, como a relação afetiva e profissional.

Cada vez mais os cegos ganham terreno nesse difícil cenário que é o da luta social e do direito? Sim, os cegos ganham destaque pois se mostram cada vez mais capazes e o processo de inclusão não é diferente. A luta pelo Direito se mostra categórica e inequívoca quanto à certeza desse direito adquirido em lutas antigas e, mais recentemente, com o aperfeiçoamento das novas tecnologias, ao ponto de dar aos cegos alcances inimagináveis em ganhos escolares e intelectuais, isso com independência e qualidade de aquisição cultural.

3.4. Os cegos e o processo de leitura pelos computadores – vantagens e prejuízos

Antônio Borges, já citado nesse trabalho, que foi o idealizador do sistema Dosvox, não poderia imaginar o enorme benefício que esse sistema traria a vida dos deficientes visuais.

Inicialmente o sistema era com poucos utilitários e sem tantos recursos de uso com arquivos que não fossem o txt. (formato texto), e que até hoje é encontrado nos sistemas operacionais como Windows.

Em 1995, realizou-se no Rio de Janeiro, importante Congresso de Educação em conjunto com o encontro Dosvox. Tal congresso definiria metas para serem seguidas pelo Ministério da Educação, principalmente, porque o encontro de estudantes foi registrado, e na época, esse procedimento foi realizado para se transmitir informações aos técnicos do Mec (Ministério da Educação, em Brasília/DF). Tal iniciativa seria formulada no Instituto Benjamin Constant – RJ, e traria ganhos em legislações futuras. É provável que trouxe muitos ganhos, basta percebermos o quanto os deficientes visuais saíram para as ruas e ganharam espaços importantes, e hoje, mais maduros, sabendo melhor seguir um caminho em direção de um amanhã seguro.

Para as minorias, o cego brasileiro parece mais forte e convicto desse seu enorme potencial e o Congresso do Rio de Janeiro, foi uma dessas alavancas rumo a um futuro mais seguro.

O Encontro Dosvox, em 1995, mostrou o quanto os cegos podiam ser unidos e lutar juntos, pelos seus direitos, e mais do que isso, mostrou para a sociedade que a luta era certa e a vitória inequívoca.

3.5. A Internet para cegos

Já no referido Congresso, se ventilava a possibilidade de navegar na internet com o Dosvox, isso segundo palavras de Antonio Borges, mas a internet, assim como o Braille do passado, traria muitas vantagens e também desvantagens, como:

Vantagens: A principal vantagem da internet é o ganho com informação e cultura, principalmente a um curto prazo de tempo, diferente do Braille que evoluiu com décadas, embora em alguns países é utilizado em grande escala (na Inglaterra em apenas alguns anos iniciais da década de 90, foram impressas somente por uma das entidades, 100.000 folhas em Braille). Isso era equivalente à maior Biblioteca Braille do Brasil, a do Centro Cultural São Paulo, da Secretaria Municipal de Cultura, que possuía em 1991, cerca de 10 mil volumes.

Por tudo isso, os cegos passaram a adquirir mais conhecimento com computador? Passaram sim, pois os cegos não precisavam mais de transcrição em Braille ou de gravações em fitas. Era necessário transcrever da tinta para o Braille a um custo de até 25 reais por volume, que corresponde ao custo de uma mensalidade de banda larga na UOL (Universo On Line – um dos provedores de Internet do Brasil) e só falta o computador que poderia ser adquirido de forma mais acessível em lojas de usados. Um computador novo, hoje em dia, custa o que custava um usado há 10 anos, e isso está garantindo mais acesso as essas máquinas tão importantes para os nossos dias e para os cegos, assim assume o papel de "olhos", já que com um scanner podem ler várias obras e com a internet, bem, esta tem trazido informações do Mundo inteiro e já foram criadas Redes de informação como a Saci (Solidariedade Apoio e Informação), a Intervox e a Ler para Ver, entre outras páginas, que concentram informações para os deficientes visuais.

E como foi para se chegar a essa enorme quantidade de informação, para os cegos? O caminho foi longo até certo ponto, e quando chegou-se aos usuários cegos de informática, ele foi curto e mais promissor e sólido. Promissor, pois os cegos nunca tiveram tanta informação, como descrito, a Saci em São Paulo (ONG ligada a Universidade de São Paulo), e a Intervox (ligada à UFRJ, no Rio de Janeiro), são importantes propagadores de informação, mas sobretudo de inclusão, isso porque possibilitam a leitura de textos sem desmerecer o caráter qualitativo, disponibilizando obras, inclusive, da literatura brasileira e internacional, obras de Direito, e um espaço de trocas de idéias e apoio às causas dos cegos.

http://www.saci.org.br – acesso dia 13-10-2007 às 7:30 hs e http://intervox.nce.ufrj.br – acesso dia 13-10-2007 às 7:46 hs

Observação: parte significativa desse relato foi extraída com a vivência do autor desse trabalho (participou de Congressos na UFRJ. e no Instituto Benjamin Constant – Rio de Janeiro – Julho de 1995).

Capítulo 4. A autonomia do Deficiente Visual segundo a perspectiva de Paulo Freire

Vimos, até então, que Paulo Freire e sua teoria Libertadora parece que influenciou mais que uma geração de educadores com idéias de autonomia, onde os mesmos que fizeram seus cursos na época que Freire ainda estava vivo sofreram influência até hoje percebida em muitos trabalhos de pesquisa, como percebemos no próprio Projeto Dosvox, que teve como base a autonomia do cego e deficiente visual.

Iremos dar continuidade em nossa pesquisa sobre a Pedagogia da autonomia e o que esta significou no papel de independência do cego e deficiente visual brasileiro. Vejamos o que é autonomia na visão de Freire.

A educação ocupa um lugar estratégico no pensamento e prática anarquistas enquanto fundamento inerente ao processo de transformação da ordem capitalista e a fundação de uma nova ordem social. A preocupação em formar homens livres e conscientes, capazes de revolucionar a sociedade, é constante na obra dos maiores pensadores anarquistas. “Há, na tradição libertária, uma vinculação explícita entre educação e luta política. A educação é um objetivo em si para combater a ignorância e a miséria, e simultaneamente, instrumento de atuação política e social contra os privilégios, as injustiças e todas as formas de opressão.”

Nesta definição do Dr. Antonio Ozaí da Silva, Docente na Universidade Estadual de Maringá (UEM), o mesmo demonstra-nos o quanto é significativa tal pedagogia para movimentos de inclusão, como os dos cegos e deficientes visuais brasileiros que, como Silva demonstra, se parecem muito com pobres oprimidos. Tal segmento, ainda hoje, necessita de melhores condições para participarem com autonomia da sociedade em que vivem.

Ainda sobre o aspecto da Autonomia segundo Silas Maciel, professor da Universidade de São Paulo, disse em 1989: “o deficiente visual anda de Metrô e consegue usar computadores.”

Tal aspecto da “independência” do portador de deficiência visual o coloca em vantagem em relação a outras camadas da sociedade, mas isso se não visto pela ótica do exagero técnico-científico, acabaria levando-nos a enganos sobre a condição do cego e do deficiente visual da época, em 1989.

Na realidade, o deficiente da época era desprovido em sua maioria de instrumentos que o fizessem autônomo, por isso a luta desse segmento foi importante para que mais tarde tivéssemos uma sociedade que ‘enxerga’ melhor nos dias de hoje o que não via no passado por parte dos deficientes visuais.

Segundo Paulo Freire: “Conhecer é descobrir e construir” – conforme cita Moacir Gadotti, na Revista de Educação, em 1997.

Ainda falando de educação libertária e a independência do deficiente visual no Brasil, tal observação de Freire mostra-nos o valor das idéias progressistas dentro do universo do deficiente, e como elas são importantes para a construção da cidadania como um todo.

A construção de uma sociedade livre e fraterna dependeu da descoberta dos problemas sociais do passado brasileiro. A redemocratização do Brasil foi um início desse marco construtor de um pensamento calcado em políticas ajustadas à realidade do Homem do Povo, como foi Paulo Freire.

Além disso, as observações de Gadotti que trata do pensamento Freiriano, revela-nos que o saber participar da sociedade sem destruir a mesma seria em nosso ponto de vista uma construção salutar de valores calcados em idéias de justiça e isso é fato na obra desse brasileiro. Justiça esta, que não é a mesma das leis, que salvo algumas garantias constitucionais, quase sempre é feita para um controle social e, diferentemente da idéia freiriana.

Os pontos vistos até então, como democracia e justiça são parte de um todo chamado liberdade, ou para Freire, Pedagogia Libertadora, que é ponto de partida desse trabalho e que se define assim:

Brasil: 1973
Neste período da nossa história vivíamos aspectos não-democráticos e de implantação em nosso país de um modelo tecnicista – a não democracia é relacionada ao regime militar que proibiu certas liberdades e manifestações político-partidárias, enquanto o tecnicismo era implantado por esse mesmo regime e se baseava em modelos de formação de técnicos em geral. Portanto, Freire, que vivia em outros países como a França, muito tinha de contemporâneo dos pensadores europeus e mais especificamente do pensamento francês por conta dessa experiência no estrangeiro.

Vimos que Freire viveu intensamente os movimentos de seu tempo. Então notamos que sua principal característica é o pensamento, ou melhor, fazer pensar. Diferente do aspecto da memorização, Paulo Freire defendia o pensamento como força de expressão nas relações humanas como um todo.

Como veremos em nosso trabalho mais adiante, Freire defendia idéias que proporcionaram a integração de diversos grupos sociais inclusive os cegos e deficientes visuais brasileiros. Notaremos que o trabalho de Paulo Freire é revelador para as classes mais carentes da população, como é o caso dos deficientes.

Mas, essa influência baseada em critérios de construção de um saber participativo para os cegos e deficientes visuais teve momentos em que, não só pensadores como Freire tiveram sua importância, como o trabalho de Institutos como o Benjamin Constant e a Associação Laramara entre outros, sem falar na Fundação Dorina Nowill para Cegos.

4.1 A pedagogia Freiriana e a autonomia do cego e deficiente visual

O que percebemos na Autonomia do cego e deficiente visual é que na realidade científica e aqui seguimos uma linha crítica social que é a abordada na maioria do trabalho de Paulo Freire.

Em suas obras Freire deixa claro que: “O Brasil é um Mundo à parte”, mas segundo a linha de pensamento freiriana e sua comunicação básica que é a “oralidade culta”, pois Freire fala com a sua gente na linguagem acadêmica, mas com predomínio popular.

Retomando o foco da análise que é a autonomia, vemos que tudo o que existe dentro do universo do cego/deficiente visual é passível de reflexão crítica-social na linha de Paulo Freire.

Desde o século XIX, o cego/deficiente-visual já promovia ações que visavam sua futura inclusão, mas foi só na década de 30 do século XX, que o cego/deficiente-visual passa a ocupar destaque, ao menos nas Universidades.

Neste período muitas foram as leis para a educação e capaz desde 1916, a partir do código Civil brasileiro. (Obs: não quisemos registrar antes de 1916, pois se tratava dos primeiros anos da República e do fim do Império e apenas para uma melhor organização metodológica fizemos essa separação)

No final da década de 50, quando vivíamos os efeitos da construção de Brasília, em 1960, Freire já alfabetizava com seu método revolucionário. Mais tarde, escreveria Pedagogia da Autonomia, que nada mais é do que a coroação desse trabalho de uma vida.

A autonomia do cego e do deficiente visual vem atrás de Pedagogia da Autonomia, e se identifica em partes. Falamos da autonomia do deficiente, com propostas semelhantes à Libertária de Freire, mas, retomando a idéia da perspectiva freiriana, entendemos que a consciência e sua autonomia é base influenciadora dessa independência, e sua autonomia formal é a alfabetização em moldes freirianos de deficientes visuais, como foi proposto pelo próprio Paulo Freire em gestão na Prefeitura de São Paulo, na pasta da Educação no governo Luiza Erundina (1989-92).

4.2 A Autonomia do Deficiente Visual

Desde de que foi inventado o bastão moderno, conhecido como bengala, teve sua importância aumentada no Brasil, através de cursos de mobilidade para cegos e deficientes visuais.

Tais instrutores e professores de mobilidade para deficientes visuais são geralmente profissionais ligados a educação física, fisioterapia, psicologia, pedagogia e serviço social, aqueles que compõem o quadro de técnicos que atendem os cegos e deficientes visuais em centros de reabilitação, como era no passado o Departamento de Reabilitação dos Hospital das Clínicas.

Neste hospital, que atende hoje em dia portadores de deficiência física em geral, mas que deixou de atender cegos e deficientes visuais, tivemos contato com uma gama enorme de fatos relacionados quase sempre a autonomia do deficiente visual ou a procura da mesma, e que vamos relatar a seguir.

4.3 A chegada a um Centro de Reabilitação

“Inicialmente, fiquei sabendo que era cego, e que não recuperaria a visão, em Março de 1990, através de meu médico na época, Professor Dr. Sérgio Cunha, destacado oftalmologista do Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi muito difícil entender e reconhecer tal situação.” – Declaração de Alzer Augusto dos Santos, autor desse trabalho.

Vendo esse quadro psicológico, passamos a entender o quanto se deve intervir no processo de reabilitação do paciente o quanto antes. Para com isso, se evitar tal comprometimento da emoção do mesmo.

Segundo o Dr. Silas Maciel, eminente professor do Hospital das Clíncias de então, “um cego, hoje em dia, anda de metrô e mexe no computador, isso garante a independência do mesmo.”

Dentro desse quadro, chegamos ao H.C. da Vila Mariana, onde nos foi perguntado pela médica da triagem se necessitávamos andar de bastão ou não. Isso porque ao ser perguntado se enxergava alguma coisa disse que via um pouco.

Devido ao quadro de minha última cirurgia enxergava luz do sol e luz de lâmpadas, principalmente as lâmpadas quentes, mas fui encaminhado para a fisioterapia para me desenvolver com o bastão. Me recordo que meses depois que adotara o bastão, batia com o mesmo na parede do H.C. da Vila Mariana, com o intuito de descontar a minha raiva por estar usando tal instrumento.

Logo me adaptei, principalmente com a ajuda dos técnicos e estagiários que compunham tal centro de reabilitação. O melhor ainda estava por vir.

Quando iniciei os treinos com bastão, inicialmente internos, percebi em um dos principais exercícios que a luz que enxergava me ajudaria na percepção da parede e dos objetos que reconhecia a distância e a posição no início (eram usados pastas escolares de papel para se perceber com a pele, mas que sem querer e sem saber via a sombra, logo passei a usar uma máscara para fechar os meus olhos e evitar a entrada da luz; isso em nosso entendimento até foi um erro, pois continuava a utilizar a visão inclusive para reconhecer portas, muros, árvores, etc.).

Não sei ao certo se as técnicas tinham consciência de que estavam me dando mais vida ao meu resíduo visual, mas não importa mais. Acontece que com o tempo passei a utilizar melhor a percepção visual que me restou, mas sem maiores orientações, apenas pelo que observava e entendia ser certo, como andar sem o bastão a partir de 1997, algo que fiz experimentalmente em Santos, no litoral, e o uso da imaginação com desenhos que produzia em uma prancheta em alto relevo (feitos inclusive com material de tinta), ou no desenvolvimento de uma maior lógica através da música com o teclado.

Procuramos, ao longo do tempo, pesquisar com professores como Maciel, mas praticamente 75 %, dos materiais que utilizei em minha pesquisa vieram de noções dedutivas e adaptadas de noções que adquiria de um ou outro professor em poucas aulas.

A partir de 2003, com o início da Faculdade de Pedagogia, passei a tomar consciência de que o que fazia era incentivar a minha visão, mas só foi quando mudei para são Paulo e li “Uma Lição de Vida” que entendi que o que fazia, outros com outras técnicas haviam feito.

Da época que só enxergava luz para hoje, que até grau de visão já me deram e passei a usar óculos de grau (10 graus na vista direita), muita coisa mudou. Embora não veja com tanta definição as imagens, a noção de perspectiva e sombra ficou bem definida, isto é, vejo tudo claro e um pouco melhor definido o contraste do escuro e o claro, inclusive da luz do computador.

Considerações Finais

Concluímos que, nesta parte do meu curso de Pedagogia pela Universidade São Marcos, foram muitos os desafios para chegarmos a uma monografia com base científica suficiente para preenchermos o pré-requisito mínimo de conclusão de tal curso.

Em primeiro lugar, entendemos que Paulo Freire foi um idealista assim como Jean Piaget, mas o Brasileiro inovou neste século com observações preocupadas com o próximo não importando a biologia do mesmo, se era deficiente ou não. Ou seja, incluiu os pouco afortunados, e enquanto isso, vimos nascer no seio do povo noções de cidadania e de Justiça com a redemocratização do Brasil e configuração de uma nação soberana.

Os deficientes visuais e cegos entram nesse contexto como atores que necessitam ainda hoje de reformas nas leis, principalmente que garantam maior credibilidade às mesmas quanto ao seu cumprimento. Além disso, sistemas de leitura e escrtia como o Dosvox o Braille garantem sobretudo escolaridade para esses deficientes da visão.

Fazer cidadania ao estilo freiriano é estudar o próximo e penar sem receio de ser brasileiro, latino e pobre de recursos, mas rico de “esperança”, algo que Freire nos ensinou e demonstra o quanto fomos felizes em conhecer tão grandioza figura.

No caso de Piaget, Antonio Silva, Silas Maciel e Moacir Gadote, entram Nowill e Louis Braille como porta vozes e co-atores de Freire. Mas não dispensamos também a grandiosa obra de Piaget, apenas quisemos com esse trabalho falar de Brasilidade, e falar de Brasil é falar daqueles que o compõem de fato. Embora Nowill e os demais também façam parte desse mundo das letras, foi Freire quem nos sensibilizou para a problemática do cego e do deficiente visual brasileiro.

Foram muitos na vaguarda da intelectualidade, disse em meu trabalho, mas sem dúvida é com idéias simples que podemos inovar em nossas universidades e escolas em geral e fazer a diferença na qualidade do ensino para todos e também para os cegos brasileiros.

Por fim, falo da vida como deficiente e dessa emoção que é construir o amanhã feliz mesmo tendo limitações, muitas vezes básicas.

Ao meu pai, onde estiver: saudades!

Professor Alzer.

Referências Bibliográficas

PIAGET, Jean. Development and learning. in LAVATELLY, C. S. e STENDLER, F. Reading in child behavior and development. New York: Hartcourt Brace Janovich, 1972.

GADOTTI, Moacir: Rev. Fac. Educ. vol. 23 n. 1-2 São Paulo Jan./Dez. 1997

www.sentidos.com.br – Copyright© – Todos os direitos reservados – Áurea Editora ltda. Edição 42 Reportagem: Adriana Perri, Inserida em: 10/1/2003

Freire, Paulo Pedagogia da Autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1996

Obtido em "http://pt.wikipedia.org/wiki/Pedagogia_da_Autonomia"

FREIRE, Paulo. (1997) Pedagogia da Esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra.1997

PASSETTI, Edson. Conversações libertárias com Paulo Freire. São Paulo: Editora Imaginário. 1998

LUENGO, Josefa Martín [et.al.]. Pedagogia Libertária:

Experiências Hoje. São Paulo: Editora Imaginário. 2000

Obtido em:

http://www.espacoacademico.com.br – Copyright © 2001-2004 – Todos os direitos reservados

http://www.fundacaodorina.org.br

http://laramara.org.br

http://www.saci.org.br

http://intervox.nce.ufrj.br

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Sobre sérgio soares gomes

Sou médico formado na UFSM,atuo na área de clínica-geral, com atenção voltada às doenças crônicas-degenerativas.

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